Tigre da Tasmânia

«Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida» C. Lispector

Quinta-feira, Maio 3

Força, chamem-me lá piegas

Os dias vão passando, somados fazem semanas, que todas juntas já arrastam meses. Sei que não estou sozinho e que aliás até somos cada vez mais. Vamos alcançando recordes, mas sem medalhas nem distinções.

Em meia dúzia de entrevistas, pelo meio de centenas de CV's enviados, quase todas foram para a área comercial. Mas como vender coisas numa altura em que ninguém compra? Fica o paradoxo.

Tem havido experiências que não sei se são de rir se são de chorar. Como num call center em inglês, para clientes no Reino Unido, em que passei com nota máxima no idioma mas fui chumbado por falta de conhecimentos técnicos e específicos do produto, que seriam ensinados na acção de formação que se desenrolaria nas duas semanas seguintes. Importa-se de repetir?

Ou num outro call center, este de vendas, em que fui também chamado mas onde era obrigatória experiência na área comercial, que nunca a tive nem jamais disse que a tive.

Ou ainda para o Estoril Open, em que os Bernardos, os Martins e as Constanças me passaram sempre à frente, já que marcam presença anos e anos seguidos. E todos sabemos como eles estão muito necessitados de dinheiro.

Ou ainda aquele ginásio que procurava comerciais e que trocou o meu CV com uma candidatura a outra função. Ganhei uma viagem à Amadora em dia de temporal.

Estes meses fazem-me pensar em situações de trabalho que já vivi e em pessoas que foram vencendo e passando por cima.

Aquela que, perante uma tarefa não conseguida, assinou um mail para a chefe com um singelo 'Temos pena!'. Ainda lá está e foi a escolhida entre nós os dois.

Ou outra que, verdinha da faculdade, ganhou um estágio, caiu nas graças, recusou-se a fazer determinadas funções e conseguiu colocar de lado pessoas com mais de cinco anos de experiência. Hoje, atravessando uma crise brutal, ainda lá está, mas continua a queixar-se dos seus 'estados de espírito'.

Ou ainda outro miúdo, que entrou a ganhar muito mais que eu alguma vez já consegui, mas que dá erros de português que até doem. Parece que até foi promovido.

Ou ainda um outro, de carácter sofrível e qualidade ao mesmo nível, que até já foi dispensado de alguns sítios, mas que, graças a um bom padrinho, vai saltando e conseguindo sempre. É o maior, diz ele.

Perante tudo isto, dou-vos força e incentivo: chamem-me piegas porque eu mereço.

Segunda-feira, Fevereiro 27

Do not stand at my grave and weep

Do not stand at my grave and weep
I am not there; I do not sleep.

I am a thousand winds that blow,
I am the diamond glints on snow,
I am the sun on ripened grain,
I am the gentle autumn rain.

When you awaken in the morning's hush
I am the swift uplifting rush
Of quiet birds in circled flight.

I am the soft stars that shine at night.
Do not stand at my grave and cry,
I am not there; I did not die.

Mary Frye

Terça-feira, Fevereiro 14

O que correu mal?

Tenho 30 anos. Mal ou bem medidos já os tenho. Não que pense muito nisso. Nunca liguei muito a datas, números redondos, aniversários ou o que seja. A verdade é que o BI (ainda sou old school) não mente. Olho para trás, olho para a frente, e a visão é a mesma: um grande vazio, um precipício onde não se vê o fundo. Tirei o meu curso como qualquer pessoa deve fazê-lo. Fui tendo os meus contactos profissionais. Fui tendo alguma experiência em Portugal e lá fora (seis meses em Paris) e chego aos 30 anos como se ainda não tivesse arrancado. Por motivos pessoais que me ultrapassaram cheguei por duas vezes à barreira do terceiro contrato numa empresa e fui dispensado. Da primeira vez apanhado numa guerra surda entre clãs (e passados anos com o pedido de desculpas de quem me julgou mal na altura mas que foi responsável pela minha saída). Da segunda pela subserviência ao poder, pelo ficar bem na fotografia. Tem sido um percurso aos caídos, literalmente. Sinto-me constantemente no intervalo de um filme que teima em não entrar em velocidade de cruzeiro. Já por muitas vezes me fizeram duvidar da minha competência e das minhas capacidades. Por demasiadas vezes me pareceu a explicação lógica para ver muitos aos quais não reconheço maior valor do que a mim me passarem à frente. Os dias são sufocantes e ao mesmo tempo vazios. Procurar empregos online, enviar CV's, puxar pela cabeça, chatear e incomodar amigos e contactos, fazer planos sempre no fio da navalha. E perceber ao final do dia que nada tem valido a pena. São golpes de sorte que nos colocam em determinadas posições. E que a fábula do trabalhador de sol a sol recompensado é coisa de filmes e de reportagens romanceadas sobre casos de sucesso.
'Mexe-te!' 'Arranja o teu negócio!' 'Imigra!' São muitas as expressões quase paternalistas que vou ouvindo aqui e ali. Como se fosse tão fácil como falar. O 'mexer' está intimamente ligado com a sorte. Nem todos temos de ser empreendedores e nem todos temos competências para tal. E ir lá para fora não é o mundo cor-de-rosa que se pinta nas revistas, onde só se fala dos que vingaram, esquecendo os milhares que nunca o conseguiram.
Estou cansado que me olhem como desempregado por vontade, por incompetência ou por inércia. E assim vão passando os dias de mão estendida. Até quando não sei.

Quarta-feira, Janeiro 11

1755

Um século depois do terramoto, Lisboa parecia a um viajante «uma mulher de meia-idade sentada num jardim de rosas, a meditar no tempo divertido da sua juventude, quando todo o mundo disputava os seus sorrisos; talvez pense também nos filhos que, longe dela, construíram o seu lar no outro lado do oceano, deixando a mãe só e abandonada».

A Ira de Deus

Quinta-feira, Julho 28

A pergunta

Geniais as perguntas escolhidas por Fátima Campos Ferreira e Mário Crespo para a edição da Única deste fim-de-semana sobre a Interrogação, tendo como mesmo entrevistado Nelson Mandela.

"Como é que se transforma um sentimento de vingança em sentimento de união?" - FCF

"O seu perdão é genuíno ou estratégico?" - MC

Quarta-feira, Julho 27

Conversas à beira da piscina I

Quando se junta um grupo de pessoas que trabalha no mesmo sítio e outras que já por lá passaram, a conversa necessariamente vai lá parar. São os ordenados que são baixos e que não sobem. São as horas que são esticadas. São os chefes que não lideram. São as promoções que não percebidas. São as indicações que não são explicadas. São as saídas que não se percebem. São as entradas que não existem e as que existem que não se justificam. Mas há uma observação comum: a falta de oportunidades. São sempre os mesmo que fazem as coisas mais giras e desafiantes. E apenas porque sim. São laços de amizade que vêm de longe, de onde e quando não se sabe nem se percebe. Nunca o ditado fez tanto sentido "as coisas são como são". Dedicação? Entrega? Horas? Isso vem depois.

E mal sabem eles que eu daria tudo para voltar a esse esquema.

Terça-feira, Julho 26

Ter emprego era natural, não um privilégio, ambição de madraço

Excelente artigo de António Costa Santos na Única desta semana, sobre "A geração da dúvida"