Tigre da Tasmânia

«Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida» C. Lispector

segunda-feira, outubro 2

A vida como é de(vida)

Para quem anda à procura de emprego cada dia e cada experiência podem revelar-se uma autêntica saga aventureira. O meu último mês foi assim. Entre vários acidentes de percurso, que apesar de tudo foram mais duas lições de vida, estão em plano de destaque duas situações. A primeira foi num call-center, num período de formação.

Desde uma simpatia sebosa e serviçal que, por lavagem às células cinzentas, tentam incutir nos futuros colaboradores «Se me permite por favor… será que posso partilhar o seu oxigénio, com a sua licença?» a pontapés nas canelas doridas da gramática e da ortografia dos manuais distribuídos, este call-center (e preusmo que os outros todos) é a verdadeira comédia. Um dos formadores devia possuir uma verdadeira embirração com os acentos, já que raramente lhes dava uso. «Com certeza», para este nosso amigo, virava «Concerteza», tal como «Bem-vindo» deve tornar-se «Benvindo» e aí por diante. Mas a pérola das pérolas estava guardada para o fim. O galardão para a frase do ano é… (para o cliente) «Como posso ajudá-lo a pensar melhor por favor?» Brilhante, no mínimo.

Outra experiência passou-se numa loja de calçado. Já tinha a noção de que esta situação se passava, mas nunca a tinha vivido na pele. O horário de trabalho nste local compreendia oito horas por dia, em seis dias por semana. Ou seja, fazendo as contas, isto dá… 48 horas semanais. Basta uma consulta rápida ao Código do Trabalho para verificarmos que estão previstas até 40 horas por semana, em regime normal. Este limite pode ser ultrapassado, desde que as horas extra sejam consideradas como tal e pagas num regime especial. Ora isto não estava a acontecer. E o mais supreendente, pelo menos para mim, é que a maior parte dos meus colegas não estava a par dos seus direitos, e aqueles que conheciam a legislação sujeitavam-se sem reclamações. Nos nossos dias o homem aceitar ser explorado pelo homem, em silêncio.

Utópico, chamam-me muitas vezes. Quase sindicalista, agitador, e por aí fora. Não me revejo nesta sociedade que caminha para o esgotamento em si mesma a passos largos, em que as pessoas optam por trabalhar horas a fio, até ao quase limite físico. E para quê? Para uma conta (mal) recheada ao final do mês, por um lado, a que se junta um corpo cheio de dores, um cérebro esfrangalhado e uma vida em sofrimento, por outro?

Utópico sim. Concordo com a idea do ex-primeiro-ministro sueco, derrotado na passada semana, das seis horas de trabalho diário, em vez das oito actuais. Simpatizo com o esboço de iniciativa da deputada Helena Pinto, do Bloco de Esquerda, da semana de trabalho de quatro dias. Porque não nos devemos matar a trabalhar. Só quando o dinheiro deixar de valer tanto poderemos alterar o estado de sítio para o qual caminhamos. Não é o medo de trabalhar que me leva a tais pensamentos, mas sim um desejo de aproveitar a vida como é de(vida). Além disso, em seis horas de trabalho será não podemos fazer o mesmo que em oito? Não será uma questão de melhor organização de tempo e de tarefas? E o mesmo não se aplicará a quatro dias no lugar de cinco de trabalho?

3 Comentários:

Às 10:16 da manhã , Blogger Dad disse...

Que experiências!!!

O mundo do trabalho cada vez está mais cão...

Beijinhos Pedro!

 
Às 11:18 da tarde , Blogger Deeper disse...

Senhores passageiros, bem vindos a bordo do voo com destino ao mundo real. Apertem os cintos, preparem-se para a descolagem. Os tempos da faculdade ficaram para trás. Esperemos que tenham aproveitado as praias paradisíacas, apesar de alguns tubarões com nomes raros como Semiótica ou Sistémica, terem insistido em dar à costa. A verdade é que a boa vida terminou e a próxima paragem será dentro de alguns anos, quando a situação económica do país começar a mostrar alguns sinais de melhoria. Até lá tentem fazer de cada dia o melhor possível e mostrar que merecem melhores oportunidades!

 
Às 1:15 da tarde , Anonymous Maria disse...

Boa tarde, o meu nome é Mafarrica Almeida. Estou a telefonar-lhe da Brincocard. Eu tenho o prazer de estar a falar com...
- Floriana Teixeira!( é mesmo portuga, dar assim o nome sem mais nem menos!)
- Senhora Dona(nota específica de formação em qualquer call center que se preze porque o português médio costuma achar suficiente ficar-se pelo Dona) Floriana Teixeira, permita-me que lhe pergunte, já ouviu fala na brincocard?!
- Já!
- E permita-me (o pedido de permissão afectado para um país afectado que acha que um marido é um esposo e uma mulher é uma esposa) que lhe pergunte, já utiliza brincocrédito?
-Não!
- Mas por algum motivo especial?!(O ranho matreiro continua a escorrer para olear o idiota embasbacado que é suposto ir dando trela à conversa)
- Não mas estava a pensar vir a ter!
- Permita-me que a ajude a pensar...(chica-espertiçe saloia em plena acção evangelizadora). Com a Brincocard oferecemos-lhe a anuidade vitaliciamente(para quem não sabe, advérbio de modo do adjectivo vitalício). Parece-lhe vantajoso?! Concorda comigo?!Fiz-me entender? mais algum esclarecimento?! Tudo isto e muito, muito mais - fajudice, falta de preparação, esforço sofrível de sobrevivência, péssimo português, farsolice, remates mecanizados, comunicação plástica, entremeado com muitos "Portanto", "neste caso", "nesta situação" no inicio de cada frase para afrouxar a tendência quase incotornável para debitar asneiras ainda mais graves.
Num país de desempregados, os call center passaram a funcionar como um dos pólos mais fortes de colocação de mão de obra. Num país recordista nos indices de analfabetismo passaram a ser ainda como um acessório conveniente para complemento da escolaridade obrigatória. Se no caso do desemprego a solução tem vindo a ser significativa, apesar da precariedade e baixos salários. Já no que diz respeito à presumida missão, involuntária certamente, de acompanhamento e reciclagem escolar para os jovens inquietos da Brandoa e Pedreiro dos Ungaros, está tudo dito. Com mestres destes, quem é que precisa de mestres. Mais vale ficarem como estão. Com menos dinheiro mas mais autênticos. Sem "portantos" nem "esposos" e "esposas" grandiloquentes. Portugal, parece-me, foi e será sempre uma porcaria de um Call Center afectado e miserável.

 

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