Tigre da Tasmânia

«Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida» C. Lispector

segunda-feira, outubro 20

Leonora de Buda

Um dos últimos anúncios de emprego a que respondi (e já lá vão dez meses...) pedia que enviasse um texto em forma de retrato com cerca de cinco mil palavras sobre uma figura pública ou alguém que eu conhecesse. Aqui fica o que enviei. Claro que nem é preciso dizer que não houve resposta. Há quem me diga que temos que aceitar que há pessoas melhores que nós que são escolhidas. E com certeza que há. Mas quando se pede uma prova há que depois dar o resultado.

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Leonora de Buda

Leonora de Buda, Buda de Budapeste, atravessou a Europa nazi, refugiou-se na Dinamarca mais ou menos livre, mas foi em Lisboa e no Estoril que encontrou a liberdade e a força para viver.

Leonora de Buda, que ficou conhecida por Nora de Buda, ou simplesmente a amiga Nora, nasceu em Budapeste, capital da Hungria, numa família com posses, como é costume nas famílias judias. O que podia ser uma vantagem à partida, sem dificuldades económicas e com uma rede de apoio garantida como é o mundo judeu, tornou-se no maior dos azares, já que Nora era criança quando Hitler e o nazismo tomaram conta da Europa e invadiram Budapeste.

A Nora nasceu na parte maior da capital da Hungria, Buda, que é também a mais rica. Daí o nome, Nora de Buda. Peste é a parte pobre da cidade do Danúbio e a ilha Margarita é palco quase reservado apenas para turistas.

Mas voltemos à Nora. Ainda criança viu-se então rodeada de Hitlers e Himmlers Goebbels e o destino só podia ser um: fugir, e o mais rapidamente possível. Da Hungria conseguiu chegar à Dinamarca, rumo a uma terra supostamente mais livre mas mais próxima do cancro nazi, atravessando o centro da Europa, com todos os perigos daquela época em que as sombras dominavam as luzes. No meio da calamidade, Nora acabou por desenvolver uma grande capacidade de relacionamento pessoal, com certeza para conseguir escapar de situações complicadas, e adquiriu competências excepcionais em dinamarquês, francês, inglês, alemão, a juntar ao nativo húngaro, tido como uma das línguas mais encriptadas do mundo ocidental.

Foi o à-vontade e a capacidade de atirar-se para a frente que a salvaram mais uma vez e a trouxeram da ainda demasiado perigosa Dinamarca dos anos ’40 do século passado para o mais tranquilo e neutral Portugal. E por cá ficou e se estabeleceu.

Começou a dar aulas das várias línguas que falava e criou uma rede de amizades e apoios, graças ao espírito aberto, natural de quem já tinha passado por uma guerra e por uma mão cheia de países em tão tenra idade.

Em Portugal conhece uma fé, uma nova religião eu tinha a ousadia de dizer que a Terra era um Só País e a Humanidade os seus Cidadãos. Achou piada, identificou-se, quem sabe até pelos males da guerra racista e preconceituosa pela qual passara, e começou a investigar. Resolveu juntar-se a esta fé mais tarde.

Nora de Buda fumava e bebia muito na juventude. E foi quando resolveu juntar-se a esta fé, que proibia o álcool, foi nessa altura que se deparou com um dilema. Aqueles ensinamentos e modo de vida eram tudo o que procurava, mas dizer adeus para sempre à bebida não era fácil. Decidiu-se por uma última noite de excessos e no dia seguinte juntou-se a esta religião. Nunca mais tocou numa gota e até os cigarros foram ficando cada vez mais escassos na sua mão.
Nora de Buda era uma personagem excêntrica. Vestiu-se até ao fim da vida com as mesmas roupas de há décadas, já que o seu corpo franzino mal abandonou o tamanho de criança. Ninguém ficava indiferente ao vê-la num autocarro, num comboio ou na rua, aquela babushka húngara no meio de Lisboa ou do Estoril.

Uma das suas actividades, como já foi dito, era dar aulas de idiomas. Foi minha explicadora de francês. Terças e quintas, duas horas de manhã, lá rumava eu à Avenida João XXI para aprender e cimentar a língua das luzes. Não foi fácil, até porque já ninguém fala francês, mas o método da Nora era eficaz. As aulas eram gravadas em velhinhos aparelhos de cassettes e depois era meu trabalho de casa ouvi-las em casa para depois fazer um resumo na lição seguinte. Método entendiante mas que funcionou. Comigo e com os meus primos, que depois aprenderam inglês também com a velhinha amiga Nora.

A Nora não era uma pessoa fácil. Era insistente e normalmente conseguia levar a dela avante. Como se costuma dizer, vencia pelo cansaço. Até que se percebesse como dar-lhe a volta. E mais uma vez o método era fácil: simplesmente dizer ‘não!’. A Nora de Buda era daquelas pessoas muito britânicas, em que o não é não, o sim é sim, e o talvez não existe. As meias tintas lusitanas com ela simplesmente não funcionavam e quem não percebesse isso arriscava-se a telefonemas de madrugada a pedir as coisas mais simples ou extravagantes, que um rotundo ‘não’, sem ofensas, teria resolvido na tarde anterior…

A amiga Nora também ficou conhecida pelos seus dotes culinários, mais exactamente pelos peculiares doces. Se calhar, mais uma vez, fruto de quem passou pela guerra, a Nora aproveitava tudo. E para estes doces, os restos aproveitados eram borras de café, cascas de fruta, enfim, o que estivesse à mão. Havia duas opiniões muito distintas. Havia quem adorasse. Havia quem odiasse. Mas indiferentes não havia nenhum, até porque todos provaram já que ninguém, ao primeiro embate, era capaz de um claro ‘não!’.  

Dona de um corpo franzino, como já foi dito, a Nora foi operada já nos últimos anos de vida e, sem explicação aparente, aguentou já muito fraca um bypass no coração. E não só aguentou como ainda foi à Dinamarca de avião visitar a família, com poucas e leves malas é verdade, gentilmente carregadas por um passageiro apanhado desprevenido que sentado ao seu lado também não disse não e quase levou de porta à porta o espólio da Nora…

A última vez que vi a amiga Nora com vida foi à beira de uma piscina, no calor do Verão do sol de Santarém. Magrinha como sempre, com o nariz comprido e espetado típico dos judeus, mas sempre sorridente. E claro, com um biquíni, porque quem já atravessou a Europa para fugir ao nazismo não se importa com essas coisas, sobretudo quando já passou dos 90.




  

1 Comentários:

Às 1:05 da manhã , Blogger V_ disse...

Aí Pedro! Estou com lágrimas nos olhos! Já nem me lembrava de certas coisas: ir até à João XXI, as k7! Aí as k7!
A sua ropa, o seu sorriso, o tom de voz que tinha, a sua cara cheia de rugas e muito suave.
O cuidado e atenção que tinha o teu pai com ela, tal como a minha mãe, eles admiravam e cuidaram muito dela. Da nossa Nora de Buda.
Parvos são os que não te chamaram do emprego, eles é que perdem!

 

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