Tigre da Tasmânia

«Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida» C. Lispector

segunda-feira, agosto 27

Avenida 9 de Julio

Frio. Muito frio. É a primeira sensação que tive quando cheguei à Argentina, dado que em doze horas a tempertaura baixa de mais de trinta graus centígrados para menos de dez. A segunda sensação tem a ver com as doze horas de voo e com o alívio de elas terminarem.

Buenos Aires, a rainha da América do Sul, a rainha do tango, é uma grande cidade que se espalha por quilométricas avenidas sempre a direito, tendo como ponto central a gigantesca Avenida 9 de Julio, a avenida mais larga do mundo, com vinte faixas de rodagem. Tudo é em grande na Big Apple sul-americana, a começar pelo caótico trânsito. Onde há três faixas andam quatro automóveis. Desde que haja espaço tudo é possível.

O tango está presente a cada esquina, seja pelos cartazes que anunciam o V Campeonato Mundial de Tango, seja pela música ao ar livre que domina as ruas pedonais ou as lojas. Inconscientemente os pés começam a mexer, o corpo a ondular e a essência do tango, sensual e matadora, envolve-nos por completo.

A cidade está dividida em bairros perfeitamente definidos e com as suas características muito próprias.

Comecemos pela Boca, o mais tradicional, com as casas pintadas às cores, recordando como o tango nasceu no Caminito, um troço de rua no coração do bairro. Aí podemos El Pibe, o mítico Diego Maradona, para os argentinos o melhor jogador de sempre. E sublinho «para os argentinos» já que corre a piada que diz: para levares um argentino ao suicídio basta apagares o seu ego... Voltando ao Diego, é claro que se trata de um sósia, mais que perfeito, do grande Maradona. E de Maradona passamos para o seu berço que o levou à fama, o maior clube de futebol da Argentina, o Boca Juniors. Uma visita ao estádio, apelidado «La Bombonera», é obrigatória. A importância do Boca Juniors é tão grande que até a poderosa Coca-Cola se verga ao prestígio do clube. Sendo um dos patrocinadores, a marca teve de trocar as suas cores vermelho e branco pelo preto e branco no interior do estádio para não chocar o clube, já que o encarnado é a cor do arqui-rival River Plate.

Saindo da Boca passamos a San Telmo, o bairro do tango e dos antiquários. Pelas suas ruas podemos encontrar antigos palácios e casas senhoriais agora abandonados, casas de tango escondidas e um espírito sul-americano que se aproxima da insegurança, o único local onde a senti. Nos antiquários a inevitável Evita em fotos, jornais e retratos da época. Aliás uma nova Evita está a chegar ao poder, com o avanço da actual mulher do presidente para a Casa Rosada. Depois de Evita chega a vez de Cristina Fernández.

E por falar em Casa Rosada, a sede da presidência, caminhamos para Downtown, com a Plaza de Mayo, as Diagonais Norte e Sur, as sedes dos bancos e dos órgãos de poder, os hotéis e a Bolsa. Downtown, a Baixa da cidade como indica o nome, tem no seu centro a Calle Florida, uma rua pedonal e dominada por lojas em todos os quarteirões, com bancas de rua, animação, artistas, quiosques, uma verdadeira festa ao ar livre. É considerada a mais importante artéria comercial da Argentina.Segue-se a elitista e exclusiva Recoleta. É o bairro da classe alte e endinheirada, onde está o Buenos Aires Design District, as embaixadas, as grandes lojas de marcas internacionais e por onde os ricos se passeiam na terra da abundância. Avenidas largas, prédios imponentes a lembrar Paris e muita elegância. O mausoléu de homenagem a Evita está igualmente na Recoleta. Não deixa de ser irónico que a rainha dos descamisados, sempre renegada pelas classes altas, seja agora homenageada no seu bairro.

A parte nordeste de Bueno Aires é dominada pelo gigantesco bairro de Palermo, que inclui o Palermo Soho e o Palermo Hollywood. O primeiro é o paraíso das galerias de arte e dos ateliers de criação, a par de restaurantes de luxo e locais para sair à noite. Já Palermo Hollywood é a sede dos estúdios de rádio, televisão e cinema. É também aqui que encontrei um dos melhores restaurantes onde já fui, o Osaka, fusão de sabores japoneses com peruanos. Linguado e salmão com molho de maracujá, vieiras com parmesão, polvo com curry, sushi com abacate, tudo regado com sumo de lima. A «tripetir», já que repetir fi-lo eu.

Por fim resta Puerto Madero, o novo bairro junto à costa, onde se juntam restaurantes da moda e lofts gigantescos para habitação com arranha-céus feitos de aço e vidro, na atmosfera típica de um grande porto.Os argentinos são em geral gente muito amável e simpática que adora conversar e divertir-se. E apesar de estarmos numa cidade muito europeia não deixa de ser América do Sul. Resta saber entrar na festa e no espírito certo. Perder-se pelas ruas e entre os porteños (habitantes de Buenos Aires), à mistura com brasileiros, peruanos, colombianos e bolivianos.!Dale! (ao invés de Espanha, onde se diz !vale!, aqui diz !dale!)

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