Tigre da Tasmânia

«Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida» C. Lispector

terça-feira, outubro 21

A praia escondida

O caminho para a praia escondida é longo. Não temos que apanhar o avião nem passar pontes mas é preciso primeiro deixar a teia das ruas da cidade, vencer o viaduto, atravessar a floresta, seguir pelo alcatrão pintalgado de branco e por fim, lá ao longe, onde o mar começa e a terra acaba, seguir pelo caminho de terra e pó. A praia escondida não se vê, só mais à frente, depois de uns minutos a pé a contornar a Natureza.

Nunca sabemos se o dia vai estar bom na praia escondida. É uma questão de palpites e de pensamento positivo. Só quando chegamos à curva da quinta Sinfonia é que ficamos a saber se temos ou não que voltar para trás. E o caminho é longo, não esquecer.

Na praia escondida, tão escondida que muitas vezes não tem ninguém, há sempre coisas novas para descobrir. É pequena, é verdade, mas cheia de recantos, de cantos secretos e está sempre a mudar. São ordens do mar, já se sabe.

Há dias em que os nossos pés podem deixar uma marca onde ninguém esteve nos últimos tempos, nem vai estar nos próximos, uma pegada que apenas o Senhor mar pode apagar.

Há coisas vermelhas escondidas no mar da praia escondida que não sabemos se são bichos ou se são plantas mas que se apressam a esconder os tentáculos às bolinhas sempre que alguém aparece.

Há buracos entre as rochas espalhadas ao acaso pela areia da praia escondida onde nos podemos encaixar, sentir o frio da pedra nas costas e os picos a magoarem a pele, e onde podemos ficar uns minutos ou mais, rodeados do cheiro a iodo, como se a rocha e o nosso corpo se transformassem num só.

E há o tempo que se esconde na praia escondida e que não passa, porque lá só entra quem Ela quer para que em cada segundo possamos festejar a dádiva que é viver.

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