Tigre da Tasmânia

«Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida» C. Lispector

domingo, dezembro 3

Caminho

Caminho para o escritório, cedo, sempre demasiado cedo. Vejo crianças a correr, de sorriso nos lábios, ansiosas por reencontrarem os amigos na escola, a senhora perfumada desce apressada a calçada e deixa um rasto atrás de si, a Maria pequenina passa e dou-lhe o beijinho matinal, no café as três colegas tomam o pequeno-almoço, três madalenas e três bicas, a mãe já cansada tenta seguir o filho que corre pra o quiosque para saber as novidades dos últimos cromos da caderneta da moda, as testemunhas de Jeová chateiam-me a meio das escadas, a malta jovem, para não dizer os miúdos, fuma estupidamente o primeiro cigarro da manhã. E todos os dias de manhã é assim.

Caminho para casa, tarde, sempre demasiado tarde. As ruas estão silenciosas, à parte dos sem-abrigos que conversam sobre rendas de casa, ainda em contos, embrulhados nos seus retalhos e tendo por colchão uma caixa de papelão, as paragens estão iluminadas de vida mas vazias como a morte (os transportes em Lisboa parecem ter o condão de não acompanharem o ritmo dos cidadãos), caminho por bairros típicos habitados por gentes de paradeiros longínquos e sou confrontado com idiomas estranhos, as sombras atravessam-me o caminho mas seguem-me até à porta. A cidade é bela.

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