Tigre da Tasmânia

«Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida» C. Lispector

domingo, novembro 1

O meu Pai

Um artigo do jornalista Pedro d'Anunciação, publicado a 23 de Outubro no jornal Sol.
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Em Paz

Mário Mota Marques

1942-2009 O português do Diálogo Inter-Religioso

Pedro d'Anunciação

Mário Mota Marques, um dos maiores protagonistas do diálogo inter-religioso em Portugal, membro da comissão que redigiu a Lei da Liberdade Religiosa, divulgador da comunidade Bahá'í, morreu quinta-feira da semana passada, aos 67 anos, de cancro no pâncreas.

Tornou-se conhecido também pelo papel que teve na introdução do ensino de várias religiões nas escolas portuguesas na segunda metade dos anos 90 (incluindo a Bahá), e ainda dos programas religiosos na RTP2.

Mário Simões da Mota Marques nasceu em Lisboa, numa família de classe média urbana mas com raízes profundas na província (até ao fim da vida, o seu refúgio era a quinta em Alvaiázere, onde se encontrava com parentela e gostava de praticar agricultura). Os pais, negociantes e viajantes, não praticavam religião, nem deram uma educação religiosa ao filho. Mário começou a sentir inquietações espirituais pelos 14, 15 anos. Aos 16, pediu para ser baptizado. Afinal, o catolicismo rodeava-o por todos os lados, no Portugal salazarista de então. Mas, segundo explicou agora um filho (Pedro Marques, jornalista da TVI), achou que uma religião em que a salvação se baseava em Jesus Cristo não podia ser universal, porque excluía todos os que sobre Ele não tivessem conhecimento. Tornou-se entretanto um estudioso das religiões. Começou por ler o Bhagavad Gita, dos hindus, mas diria mais tarde não ter encontrado ali resposta para as suas dúvidas. Ainda aos 16 anos, foi conduzido a um centro Bahá'í por um amigo músico. Esta amizade gerou um episódio bizarro: uma carta do amigo mencionava Bach, e a PIDE, mergulhada em teorias de conspirações, acreditou tratar-se de um código para bahá'í. Foram à casa onde Mota Marques vivia com os pais e esquadrinharam tudo. Para o antigo regime, Bahá'í equivalia a subversão. Mário Soares chegou a ser advogado dos seus membros nos anos 70. Da mesma forma que hoje é a Prémio Nobel Shirin Ebadi em relação aos perseguidos no Irão.

Mas Mota Marques encontrara em 1961 uma fé que o satisfazia.

A Fé Bahá'í surgiu na antiga Pérsia (ironicamente, hoje, os seus seguidores são perseguidos no Irão), fundada em 1844 pelo profeta Bahá'u'lláh, que se anunciou "mensageiro de Deus para a nossa era» - até aparecer outro "ainda mais magnífico". Crêem nos vários profetas das grandes religiões como partes do mesmo caminho (como os cristãos em relação aos judeus). A sua sede é em Israel, Haifa (onde está instalado o Conselho Mundial, eleito de 5 em 5 anos por representantes de todo o mundo), porque aí morreu e foi sepultado Bahá'u'lláh em 1892, depois de um exílio forçado pelos otomanos.

As escrituras que seguem foram deixadas por Bahá'u'lláh. Livro da Certeza, Livro das Leis, epístolas a crentes e cartas a reis da época. "A terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos" é talvez o ensinamento mais abrangente. E, como nos disse um bahá'í português, acreditam que depois da morte, "a alma continua a evoluir de outra forma". Não têm sacerdotes, mas conselhos locais, nacionais e internacionais eleitos, normalmente compostos por nove membros (Mário Mota Marques foi durante mais de 40 anos membro da Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá'ís de Portugal, Fideicomissário do Huqúqu'lláh - a Lei de Bahá - e membro do Conselho de Fideicomissários para o sul da Europa).

Actualmente, os bahá'ís assumem-se como a segunda religião mais disseminada geograficamente, depois do cristianismo: são 200 grupos étnicos, tribais e raciais em 235 países e territórios independentes.

Em Portugal, contam entre os crentes com duas figuras emblemáticas: Nelson Évora, o atleta que ganhou para Portugal a única medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim, e o músico de origem iraniana Mazgani.

Mota Marques sempre cultivou simultaneamente a actividade religiosa bahá'í e a vida profissional (formou-se no Instituto Superior de Economia e Gestão de Lisboa). Entre 1973 e 1975, já casado e com o primeiro de dois filhos, partiu para Angola como "pioneiro" (aquilo a que os católicos chamariam missionário).

Entretanto ia trabalhando em empresas com a Kodak, o cinema Londrs ou a cadeia de padarias Pão Doce - onde teve clientes tão célebres como Amália Rodrigues ou Mário Soares.

Soares, de resto, cruzou-se várias vezes na sua vida: a última como presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, de que Mota Marques era o secretário.

Fanático (se assim se pode dizer) do Sporting, cinéfilo, viajante por gosto e por serviço, amante do campo (não gostava apenas de cultivar os produtos da sua quinta de Alvaiázere mas também de os cozinhar, em almoços ou jantares de família e de amigos), foi apanhado pelo cancro do pâncreas em Março passado. Tarde demais, segundo o médico que o tratou. Teve representantes de todas as principais comunidades religiosas no seu enterro.

2 Comentários:

Às 11:33 da tarde , Blogger Sofia disse...

Vai ficar tudo bem... Vai ficar tudo bem.

:)

 
Às 8:26 da tarde , Anonymous Lucília disse...

Um artigo excelente e uma foto magnífica (talvez a melhor de todas as publicações).
Como dizes no post mais recente, é outra dimensão, a que não sabemos que nome dar.
Beijo

 

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