Tigre da Tasmânia

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terça-feira, setembro 22

Presos por terem outra religião no Irão

In Público - 20 de Setembro de 2009

O "crime" de ser bahá'i está a ser pago na cadeia
Por Margarida Santos Lopes

Os sete líderes da maior minoria religiosa iraniana estão presos há mais de um ano sem julgamento. Algumas acusações podem condená-los à morte, mas o Governo de Teerão sabe que eles são inocentes

"A fé não as deixa ter medo de morrer"
Mais de 20 mil mortos em 150 anos

Às 3h30 de 14 de Maio de 2008, agentes secretos chegaram a casa de Fariba Kamalabadi, em Teerão. Traziam um mandado de busca. Demoraram três a quatro horas a revistar tudo. Detiveram-na e confiscaram vários objectos, desde computadores a fotos da família. Iraj Kamalabadi, um dos cinco irmãos, que vive na Califórnia, denuncia: "Foi um plano concertado para deter todos os líderes bahá'is. As suas moradias foram invadidas à mesma hora."

A psicóloga Fariba, de 46 anos, foi levada para a prisão de Evin no mesmo dia que o empresário Jamaloddin Khanjani, de 75, o industrial Afif Naemi, de 47, o engenheiro agrícola Saeeid Rezaie, de 51, o antigo assistente social Behrouz Tavakkoli, de 57, e o optometrista Vahid Tizfahm, de 37. A professora Mahvash Sabet, de 55, já tinha sido presa a 5 de Março de 2008, em Mashhad, para onde fora convocada pelo Ministério dos Serviços Secretos, sob o pretexto de responder sobre um funeral no cemitério bahá'i.

Depois de meses de isolamento, só muito recentemente os sete dirigentes da maior minoria religiosa do Irão ficaram a conhecer acusações formais: "espionagem a favor de Israel, insulto a santidades religiosas, propaganda contra a República Islâmica e corrupção na Terra". Iraj Kamalabadi, numa entrevista ao PÚBLICO, por telefone, não se conforma: "Eles são inocentes e só estão presos por serem bahá'is".
A lei prevê a pena de morte para espionagem e "corrupção na Terra", mas o Centro de Defesa dos Direitos Humanos do Irão, cuja presidente, a Prémio Nobel da Paz Shirin Ebadi, integra a equipa de advogados, garante que não há provas para os condenar e recomenda que o julgamento, marcado para 18 de Outubro, após vários adiamentos, seja aberto ao público.

Iraj confia em que as pressões internacionais salvem a sua irmã e os outros do fim que tiveram, depois da revolução islâmica de 1979, as primeiras assembleias espirituais nacionais bahá'is no Irão - conselhos consultivos de nove membros eleitos pelos crentes e que regem a vida de uma comunidade sem clero. Em 21 de Agosto de 1980, os nove foram raptados. "Nunca mais ninguém os viu, estarão mortos", afirma o consultor que, em 1977, foi estudar para Boston e não mais pôde regressar a casa.

A 27 de Dezembro de 1981, na segunda assembleia, só um dos nove sobreviveu ao pelotão de fuzilamento. Em 1984, da terceira assembleia, quatro dos nove foram executados.

"Em meados dos anos 1980, o Governo decretou que as assembleias espirituais deviam ser dissolvidas", conta Iraj. "Como os bahá'is são obedientes às leis dos países onde vivem, a comunidade dissolveu as suas instituições. Foi então criada, com consentimento das autoridades, uma associação informal, os Yaran [em persa, significa "Amigos que ajudam"], que administra as necessidades básicas dos bahá'is." Os sete detidos em Março e em Maio eram os líderes Yaran.

O cobertor no chão

A perseguição não é novidade para Fariba Kamalabadi, mãe de três filhos que sonhava ser médica mas que, tal como todos os bahá'is, em 30 anos de revolução, não pôde entrar na universidade. "É a terceira vez que é detida", refere Iraj. "A primeira foi há cinco anos; a segunda há três anos e meio. Também o nosso pai esteve na prisão. Levaram-no de pijama. Severamente torturado, morreu pouco depois de ser libertado, com problemas cardíacos agravados pelos maus tratos."

Iraj acredita que a sua irmã não esteja a ser molestada fisicamente, mas alerta para a degradação das condições em que ela e os outros seis líderes se encontram. "Nos primeiros meses de isolamento, foram submetidos a duros interrogatórios", conta. "As celas não têm ventilação, nem luz natural. Deram-lhes um cobertor e uma almofada. A comida é horrível, e as porções têm vindo a ser gradualmente reduzidas. Os utensílios onde os alimentos são cozinhados e servidos não são lavados. Até o pão é bolorento."

Desde os protestos contra os resultados das eleições presidenciais de Junho, adianta Iraj, as celas "ficaram sobrelotadas com novos presos. Muitos contraíram doenças. A minha irmã estava a tomar medicamentos para o colesterol e batimentos cardíacos irregulares. Na prisão, não lhe permitem tratar-se. Está gravemente doente. Quando a minha mãe foi autorizada a visitá-la, há três meses - pela primeira vez - não reconheceu a própria filha: só pele e osso. Todos sofrem de má nutrição. A pele revela os sintomas de não estar exposta ao sol. Porque a maior parte do tempo é passada a dormir ou sentados no chão, têm problemas de ossos."

Uma "flor" na prisão

No meio da adversidade, Fariba conseguiu um pequeno milagre. "Um dia, quando se aproximava o 14.º aniversário da filha mais nova [Taraneh Taefi], não encontrando nada para lhe dar de presente, reparou que na refeição vinha uma cenoura podre", conta Iraj. "Notou que na base da cenoura havia raízes a rebentar. Embrulhou-a em papel humedecido em água, e os rebentos começaram a crescer, mesmo sem luz solar. Quando a família a foi visitar, ela ofereceu a cenoura à filha como prenda de anos. Foi um momento muito comovente."

Iraj repete que não há qualquer justificação para os sete líderes dos Yaran não serem libertados. As autoridades "sabem que as acusações são falsas, mas infligem dor devido a uma profunda hostilidade face aos bahá'is."
Apesar de tudo, sente-se encorajado com as mudanças de mentalidade que a sociedade tem demonstrado. "Em Fevereiro, um grupo de académicos, escritores, jornalistas, artistas, activista iranianos publicou uma carta aberta intitulada Nós temos vergonha. Num gesto sem precedentes, reconheceram ter ignorado, desde há 150 anos, o sofrimento dos bahá'is."

Inquirida sobre as expectativas em relação às próximas negociações do Irão com o grupo 5+1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha), Diane Ala'i, representante da comunidade bahá'i internacional na ONU, em Genebra, diz ao PÚBLICO que só tem um pedido: "Ponham os direitos humanos na agenda e não os sacrifiquem em nome de outros interesses."

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