Tigre da Tasmânia

«Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida» C. Lispector

terça-feira, dezembro 16

Jardim

O pato saíu do lago. Abandonou as águas escuras, o relvado cheio de penas dos outros iguais, e quem sabe dele próprio, saltou por entre as canas e ultrapassou a cerca de ferro pintado de verde. Atreveu-se a atravessar a rua do jardim feita de betão misturado com pedra e brita e lá seguiu. Se calhar atreveu-se porque não sabia sequer o que estava a fazer e nem percebeu que não era suposto fazê-lo. Apenas seguiu o instinto e continuou em frente.

Passo a passo, os pés unidos pela membrana patal, amarinhou pelas colinas do jardim e por lá andou, a debicar milho e pão com os amigos pombos, a jogar às cartas com os velhotes nas mesas de pedra na porta norte, a desafiá-los para uma competição de malha, a tricotar ao lado das avós que vigiavam os netos nos escorregas e nos balancés, a folhear os livros e a mergulhar nas histórias inventadas ou reais dos contos da biblioteca no coração do jardim, a tocar com músicos imaginários no coreto central, a beber um café que já não existe e a ler os jornais de sábado de manhã com os vizinhos das redondezas e por fim a correr com os alunos de desporto das escolas ao lado do jardim.

E ao fim do dia voltou ao lago e contou tudo aos colegas patos. Que não acreditaram, claro.

1 Comentários:

Às 6:01 da tarde , Blogger Sofia disse...

Muito à frente, esse pato. "Fernão Capelo Pato", apetece dizer! :P

 

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