Tigre da Tasmânia

«Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida» C. Lispector

sexta-feira, dezembro 31

José Saramago: a viagem de um aprendiz

A 16 de Novembro de 1922 nascia José Saramago. Ou melhor, nascia José de Sousa que, por engano ou brincadeira, ganhou como apelido a alcunha da família. O nome de planta ficou e, mesmo depois de ter partido, com dois anos, para Lisboa com os pais, as raízes ficaram nesta aldeia a uma centena de quilómetros da capital.

Azinhaga, Jerónimo e Josefa. Estes são, provavelmente, os nomes que mais marcaram a infância de José Saramago. O primeiro é a aldeia ribatejana onde nasceu. Os dois últimos são os nomes dos seus avós, camponeses na mesma aldeia, que acabaram por marcar a sua vida e a sua obra.

As visitas e estadias à aldeia natal foram frequentes durante vários anos enquanto, em Lisboa, começava a estudar. “Fui bom aluno na escola primária. A terceira e a quarta classes foram feiras num só ano”, afirmou Saramago. Mas, dois anos depois e já no liceu, as dificuldades económicas da família levaram-no a abandonar a escola.

O curso de serralheiro mecânico surgiu como alternativa e, apesar de ser um curso profissional, o plano de estudos da escola incluía uma disciplina de Literatura. E foi através dos livros escolares que José Saramago descobriu o prazer de ler. Para quem não tinha um único livro seu em casa, aquela foi uma experiência marcante. “Ainda hoje posso recitar poesias aprendidas naquela época distante”, afirmou muitos anos depois.

Os livros continuaram a tentá-lo a partir daí. Enquanto de dia trabalhava como serralheiro mecânico, à noite frequentava uma biblioteca pública em Lisboa. A viagem às cegas pelo mundo das letras, palavras, frases e páginas foi feita “sem ajudas nem conselhos”.

A década de 40 trouxe com ela factos importantes na vida de Saramago. Em 1944 casou com Ilda Reis, com quem 3 anos mais tarde, teria a sua única filha, Violante. Nesse mesmo ano, 1947, edita o seu primeiro romance, “A Viúva”, ou “Terra do Pecado”, como ficou conhecido. O primeiro romance permaneceu solitário durante quase 20 anos.

“Devem ter sido pouquíssimas as pessoas que deram pela minha falta”, disse Saramago sobre o seu interregno até à publicação de “Os Poemas Possíveis”, em 1966. Mas o escritor não se afastou completamente das letras durante esses anos. Enquanto trabalhava numa editora, conseguiu conviver com alguns dos mais importantes escritores portugueses de então; e, ao mesmo tempo, passou a dedicar-se à tradução. Colette, Tolstoi, Baudelaire passaram pelas mãos de Saramago. É nesse ano que começa uma relação com Isabel da Nóbrega, uma paixão que levou o escritor a dedicar-lhe alguns livros.


Da editora Estúdios de Cor passou para as páginas a preto e branco do Diário de Lisboa, em 1971. Após a revolução de 25 de Abril, troca de diários e torna-se director-adjunto do Diário de Notícias. “Quem não está com a revolução, é melhor não estar no Diário de Notícias”, disse Saramago na sua entrada no jornal e à sua passagem ficaram ecos, já assumidos pelo escritor, do saneamento de cerca de 30 jornalistas.

Com o contra-golpe de 25 de Novembro de 1975, a época de Saramago no matutino nacional termina. “Sem a menor possibilidade de encontrar [emprego], tomei a decisão de me dedicar inteiramente à literatura”, revelou. Nascia ali um novo Saramago.

Da Azinhaga para a Academia Sueca

Em 1976 Saramago viveu algumas semanas numa aldeia alentejana. O escritor atribui a essa vivência a inspiração para o romance “Levantado do Chão” (1980). Surgia aí, disse o próprio, o modo de narrar que caracterizaria toda a sua ficção.


A década de 80 seria fértil e consagraria José Saramago dentro e fora de Portugal. Os romances “Memorial do Convento” (1982), “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984), “A Jangada de Pedra” (1986) “História do Cerco de Lisboa” (1989), são ainda hoje apontados como as obras maiores de Saramago.


O escritor recordaria estes anos por um outro acontecimento especial. Em 1986, então com 64 anos, conhece a jornalista espanhola Pilar del Río, de 33. Casaram-se em 1988 e começava, diria Saramago, a sua segunda vida. “Se eu tivesse morrido antes de te conhecer, Pilar, teria morrido sentindo-me muito mais velho”, disse em entrevista.

Salvaguardando o desgaste do gracejo, Pilar foi o rochedo do Prémio Nobel nos últimos anos de vida. Organizadora exemplar da sua agenda (e tradutora dos seus livros para espanhol) foi também ela quem nunca “deixou” Saramago parar. O escritor confessaria, entre sorrisos, na sessão de apresentação do livro “O Caderno”, que quando lhe faltava a vontade para escrever o seu texto diário para o blogue, era Pilar quem, com um “olhar severo”, lhe dizia que tinha um Mundo inteiro sobre o qual escrever.

De Portugal para Lanzarote


Em 1993, José Saramago e Pilar trocavam Portugal pela ilha de Lanzarote, no arquipélago das Canárias. Saramago saía magoado com o país, ou pelo menos com os seus governantes. Dois anos antes, em 1991, o então subsecretário de Estado e da Cultura, António Sousa Lara, vetou a candidatura o romance “O Evangelho segundo Jesus Cristo” ao Prémio Literário Europeu alegando que o livro era ofensivo para os católicos. Também em 1994, a maioria (PSD) da Câmara de Mafra considerou o “Memorial do Convento” um romance “prejudicial” para a imagem da vila recusando dar o nome do escritor a uma escola local.

Em Lanzarote, José Saramago escreve um diário “Cadernos de Lanzarote” (1997), e os romances “Ensaio sobre a Cegueira” (1995), “Todos os nomes” (1997), “A caverna”(2000), “O Homem Duplicado”(2002) , “O ensaio sobre a Lucidez” (2004), “As intermitências da morte” (2005), “A viagem do Elefante” (2008) e “Caim” (2009).

Em 1995 foi-lhe atribuído o Prémio Camões, e em 1998 o maior de todos: o Prémio Nobel de Literatura. No longo discurso na Academia Sueca, intitulado “De como a Personagem Foi Mestre e o Autor Seu Aprendiz”, Saramago lançou as primeiras palavras ao avô Jerónimo: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever.”

O Prémio Nobel abria as portas a ainda mais leitores e a uma vida preenchida. “Viajei pelos cinco continentes, oferecendo conferências, recebendo graus académicos, participando em reuniões e congressos (…) mas, sobretudo, participei em acções reivindicativas da dignificação dos seres humanos e do cumprimento da Declaração dos Direitos Humanos pela consecução de uma sociedade mais justa, onde a pessoa seja prioridade absoluta, e não o comércio ou as lutas por um poder hegemónico, sempre destrutivas.”

O discurso cívico, social, de intervenção, foi sempre marca de José Saramago. A palavra “polémica” andou de mão dada com o seu nome em variadas ocasiões: em 1989 contesta a direcção de Álvaro Cunhal no PCP, em 2001, Saramago compara a ocupação israelita dos territórios palestinianos ao campo de concentração nazi de Auschwitz; em 2006 sugere que Portugal e Espanha fundem uma federação ibérica; em 2009, aquando do lançamento daquele que viria a ser o seu último livro, “Caim”, diz que a Bíblia é um manual de maus costumes.

Em 2008, a saúde começa a falhar a José Saramago. A viagem do elefante Salomão, em “A Viagem do Elefante”, esteve para ficar a meio. A doença apanhou José Saramago de rompante e atirou o escritor para uma cama de hospital. Três meses depois o escritor recuperava e estava pronto a pôr novamente Salomão a caminho. Depois disso ainda criou um blogue nas páginas do site Fundação José Saramago, assumindo-se no entanto somente “emprestado à internet”. Ao mesmo tempo escreveu “Caim” e foi já novamente de saúde débil que deu o corpo às balas para defender um livro que chocou a Igreja Católica.

José Saramago deixa inacabado um romance sobre a guerra e tráfico de armas. Ao público poderá chegar ainda este e outros textos como “Clarabóia”, o livro que sucedeu ao seu livro de estreia de 1947, “Terras do Pecado”. Por escrever ficam também todos os livros que Saramago "inventou" ao longo da carreira, em cada epígrafe que escreveu ao longo dos anos. Todas são de livros que não existem.


Lembremos uma. Na epígrafe do romance “A viagem do elefante”, Saramago escreve: «Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam». Esse sítio é a morte, explicaria mais tarde. Mas durante a viagem, aquela, a do elefante, José Saramago consegue içar-nos até ao «cachaço» de Salomão, de onde vemos uma época desfilar à nossa frente. Tal como nas linhas de outros romances vimos outros tempos, outras lutas, outros mundos. E durante a viagem, esta, a de Saramago, que agora termina, aos 87 anos, viu-se um homem com a marca de um génio. Até amanhã, Saramago.

@Frederico Batista e Vera Moutinho, in sapo.pt

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